Sou um consumidor moderado de futebol. Na modalidade de clubes, consumo sobretudo as variantes inglesa e espanhola, ocasionalmente a italiana e nunca as zurrapas lusitanas ou germânicas. Na modalidade de selecções, sou ainda mais circunspecto e tenho uma tendência incontrolável para torcer pelos adversários do Brasil, excepto quando o adversário é o Uruguai, caso em que prefiro apoiar o árbitro —que atendendo à educação moral dos intervenientes, bem precisa.
Deu-se o caso de ter assistido, por inadvertência, ao intervalo do jogo de ontem, que opôs a sub-selecção de vinte e um de Portugal à da Alemanha (tenho a certeza que a coisa leva um “sub” algures). Os filhos da ditosa pátria lusitana estavam em apuros e para "seguir em frente” não bastava que a deusa Fortuna lhes sorrisse: era preciso que a formosa criatura entrasse em campo ao intervalo, arregaçasse as vaporosas vestes, fintasse uma dezena de marmanjões teutónicos e lhes marcasse três golaços. Isto enquanto, marotamente rasteirava os Sérvios, que, coitados, nem desconfiariam —são umas atrás das outras.
A obsessão dos portugueses com a necessidade de "seguir em frente” é impressionante e inexcedível, se descontar uns memoráveis quarenta metros que fiz em cima da bicicleta no primeiro dia em que o meu pai retirou as rodas de apoio sem me dizer nada. Ok, se calhar não chegou a vinte metros, mas é uma história antiga e muito apreciada na família.
Em todo o caso, no intervalo do sub-jogo, o jornalista de turno, certamente preocupado com o efeito que uma súbita desqualificação das crianças teria sobre o “optimismo” dos portugueses —outra especialidade luso-obsessiva— decidiu animar o povo, garantindo que o apuramento ainda era matematicamente possível. Que as criancinhas da selecção portuguesa não saibam jogar à bola, são más notícias para a reforma dourada dos papás. Que muitos adultos deste (ainda) país continuem sistematicamente a dizer coisas destas, são más notícias para todos.
Para os mais desatentos, o problema é o seguinte: a matemática avançou um tudo nada nos últimos milénios e foi além das operações algébricas simples. Em particular, desde há uns quantos séculos que a teoria das probabilidades é uma parte da matemática. As regras de cálculo de probabilidades podem ser especialmente simples. Um desses casos é o do cálculo da probabilidade de ocorrência conjunta de dois acontecimentos estatisticamente independentes: basta multiplicar as respectivas probabilidades.
Quando a probabilidade de ocorrência desses acontecimentos é muito baixa, o produto —a probabilidade de ocorrência simultânea— é bastante próximo do zero. O acontecimento de probabilidade nula é o acontecimento “impossível” e por uma boa razão: fora do universo do The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, nada é mais remotamente inverosímil. Isto para informar os senhores jornalistas que a conjunção de resultados necessária ao apuramento da selecção sub-portuguesa, tornava-o matematicamente (quase) impossível.
Se esta palhaçada não for oficialmente desmentida como a piada de mau gosto que efectivamente é, perceba uma coisa: os paizinhos que vão avaliar os professores são os “matematicamente possíveis”. A criancinha acumulou nítidos nulos durante o ano lectivo? O Sr. Professor é obviamente destituído de "mérito". De nada adiantará ao desgraçado professor argumentar que a hipótese de um vinte redentor seguir-se a uma revoada de zeros, era absurda e improvável. Com olhinhos porcinos e obstinados, o pai insistirá: era matematicamente possível.
Salve-se quem puder.
Deu-se o caso de ter assistido, por inadvertência, ao intervalo do jogo de ontem, que opôs a sub-selecção de vinte e um de Portugal à da Alemanha (tenho a certeza que a coisa leva um “sub” algures). Os filhos da ditosa pátria lusitana estavam em apuros e para "seguir em frente” não bastava que a deusa Fortuna lhes sorrisse: era preciso que a formosa criatura entrasse em campo ao intervalo, arregaçasse as vaporosas vestes, fintasse uma dezena de marmanjões teutónicos e lhes marcasse três golaços. Isto enquanto, marotamente rasteirava os Sérvios, que, coitados, nem desconfiariam —são umas atrás das outras.
A obsessão dos portugueses com a necessidade de "seguir em frente” é impressionante e inexcedível, se descontar uns memoráveis quarenta metros que fiz em cima da bicicleta no primeiro dia em que o meu pai retirou as rodas de apoio sem me dizer nada. Ok, se calhar não chegou a vinte metros, mas é uma história antiga e muito apreciada na família.
Em todo o caso, no intervalo do sub-jogo, o jornalista de turno, certamente preocupado com o efeito que uma súbita desqualificação das crianças teria sobre o “optimismo” dos portugueses —outra especialidade luso-obsessiva— decidiu animar o povo, garantindo que o apuramento ainda era matematicamente possível. Que as criancinhas da selecção portuguesa não saibam jogar à bola, são más notícias para a reforma dourada dos papás. Que muitos adultos deste (ainda) país continuem sistematicamente a dizer coisas destas, são más notícias para todos.Para os mais desatentos, o problema é o seguinte: a matemática avançou um tudo nada nos últimos milénios e foi além das operações algébricas simples. Em particular, desde há uns quantos séculos que a teoria das probabilidades é uma parte da matemática. As regras de cálculo de probabilidades podem ser especialmente simples. Um desses casos é o do cálculo da probabilidade de ocorrência conjunta de dois acontecimentos estatisticamente independentes: basta multiplicar as respectivas probabilidades.
Quando a probabilidade de ocorrência desses acontecimentos é muito baixa, o produto —a probabilidade de ocorrência simultânea— é bastante próximo do zero. O acontecimento de probabilidade nula é o acontecimento “impossível” e por uma boa razão: fora do universo do The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, nada é mais remotamente inverosímil. Isto para informar os senhores jornalistas que a conjunção de resultados necessária ao apuramento da selecção sub-portuguesa, tornava-o matematicamente (quase) impossível.
Se esta palhaçada não for oficialmente desmentida como a piada de mau gosto que efectivamente é, perceba uma coisa: os paizinhos que vão avaliar os professores são os “matematicamente possíveis”. A criancinha acumulou nítidos nulos durante o ano lectivo? O Sr. Professor é obviamente destituído de "mérito". De nada adiantará ao desgraçado professor argumentar que a hipótese de um vinte redentor seguir-se a uma revoada de zeros, era absurda e improvável. Com olhinhos porcinos e obstinados, o pai insistirá: era matematicamente possível.
Salve-se quem puder.