A súbita coordenação estratégica entre o Hezbollah e o Hamas, com a correlativa importação dos métodos dos primeiros pelos segundos, é um elemento novo na guerra permanente do Médio Oriente. A pergunta "porquê agora?" tem uma resposta simples. Para a encontrar basta subir um degrau na cadeia alimentar da política internacional.As duas organizações terroristas são apenas cães de guerra dos governos sírio e iraniano. Daqui por uns dias o Irão e o seu programa nuclear serão abordados pela primeira vez no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Teerão necessitava urgentemente de algo que modificasse o clima psicológico das conversações, gerando um framing effect mais favorável aos seus desígnios.
Foi para isso que largou os cães em Gaza e no Líbano, com a colaboração do "eterno" aliado: a Síria. A escolha estratégica iraniana (por proxy) é um acto de fraqueza. Mas desta vez, o governo israelita liderado por Olmert vacilou e mordeu o anzol. Politicamente, o avanço das forças militares israelitas pelo território libanês é um erro colossal.
O erro está no timing e na escolha do terreno; não necessariamente nos meios envolvidos. Estes só podem ser avaliados em função do objectivo político das acções militares, que não é claro: admito que possa ser a captura da liderança do Hezbollah. Peritos militares poderão avaliar se seria possível capturar Sayyed Hassan Nasrallah através de outro tipo de operação, menos "pesada", mas "terraplenar" o território de acção do Hezbollah e fazê-lo a poucos dias do primeiro revés diplomático que o Irão e os seus apoiantes se preparam para sofrer é simplesmente estúpido.
Em Teerão, as notícias libanesas foram certamente recebidas com regozijo. Em Damasco, idem. A Síria, que com o assassinato de Rafik Harriri perdeu o apoio francês —o seu principal aliado europeu, está desde então sob pressão internacional para abandonar o território libanês. O envolvimento israelita serve perfeitamente para justificar a intensificação do apoio ao Hezbollah e o reforço da intromissão síria no Líbano (o governo libanês é, como quase sempre, irrelevante).
A "adivinha" da convergência terrorista Hamas-Hezbollah está assim embrulhada no "mistério" geopolítico maior do Médio Oriente. As coisas são muito mais complicadas do que aqui se pode dar conta, mas convém notar que o mistério do Médio Oriente também está dentro de um enigma geopolítico mais amplo: o Irão não é o predador maior na cadeia alimentar da política internacional.
Quem quiser descobrir a solução, vasculhe os aforismos de Churchill. Se não tiver paciência, fica pelo menos uma sugestão de leitura:

"Asad of Syria: The Struggle for the Middle East" (Patrick Seale)