Sexta-feira, 1 de Setembro de 2006

Cassandra

O The New York Times relata hoje que a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) realizou uma nova descoberta de urânio enriquecido na República Islâmica do Irão. Há dois elementos de caracterização que tornam esta informação extraordinariamente importante.

Primeiro, trata-se de urânio enriquecido contendo níveis do isótopo U-235 superiores a 80%. Níveis destes apenas são interessantes para aplicações militares. Os responsáveis políticos iranianos insistem que nunca ultrapassaram nem tencionam ultrapassar níveis de enriquecimento de 5%, compatíveis com a produção de energia nuclear.

Segundo, trata-se da primeira amostra detectada pela AIEA que não pode ser relacionada com equipamento nuclear paquistanês adquirido pelo Irão —que poderia ainda conter vestígios de urânio enriquecido a níveis elevados a partir da origem.

A conclusão única decorrente destas duas informações é que os responsáveis políticos iranianos estão a mentir quando negam a existência de um programa secreto com o objectivo de produzir armas nucleares.

O prazo dado pelas Nações Unidas à República Islâmica do Irão para que ponha termo às actividades relacionadas com o programa nuclear terminou ontem, com os dirigentes iranianos declarando abertamente que não tencionam parar com o programa. Qualquer outra declaração seria, aliás, surpreendente: desde há vários meses que é manifesto e notório que os dirigentes iranianos não cederão à pressão diplomática internacional. Na sequência normal das coisas, os chefes de Estado e de governo dos principais países ocidentais tentarão agora levar o Conselho de Segurança da ONU a aprovar sanções contra o Irão. A Rússia e a República Popular da China opor-se-ão, prolongando o prazo de impunidade de Teerão.

Sanções de teor generalista não serão eficazes e terão o efeito contraproducente de reforçar o poder político da teocracia, atingindo sobretudo a parte da população de menores recursos económicos —a base de apoio de Ahmadinejad, que, como excelente demagogo que é, não perderá a oportunidade para capitalizar politicamente o descontentamento, desviando o ónus da responsabilidade para o exterior.

Sanções "inteligentes", dirigidas às importações de equipamentos e tecnologias vitais ao sector energético iraniano, poderão produzir efeitos, mas são difíceis de "calibrar" e de negociar em sede do Conselho de Segurança. Além disso serão facilmente contornadas, até porque a renda económica associada à proibição de venda de equipamentos e serviços altamente especializados é muito elevada.

A conjectura estratégica iraniana é que esta fase "cinzenta" de discussão no Conselho de Segurança se prolongará durante o tempo suficiente para que os primeiros elementos do programa de armamento nuclear se tornem operacionais. Depois disso, contam com a protecção do "efeito de dissuasão". Politicamente, é uma corrida desenfreada em direcção a esse objectivo. É também uma tragédia: as sistemáticas dissensões entre os principais governos ocidentais convenceram a teocracia iraniana que a inadmissibilidade de um Irão nuclear não é credível —é apenas um bluff negocial e perante o fait accompli, os governos ocidentais "acomodarão" as ambições geopolíticas iranianas.

Estão enganados. Por ironia do destino, a "vitória da sobrevivência" do Hezbollah poderá ter contribuído decisivamente para uma acção militar preventiva americana, ao reduzir a confiança que os EUA e o ocidente atlântico depositavam na capacidade de dissuassão e de acção das forças armadas israelitas. Perante a irredutibilidade iraniana, a frase not on my watch começará a dominar o horizonte político da Casa Branca e restará apenas o recurso aos meios militares. É essa a natureza da tragédia.

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